• Pr. André Pereira

Mestre, não te importas que morramos?

Mais de um ano e meio de pandemia, 500.000 mortes no Brasil. Será que Deus não se importa? Ele não vê nosso sofrimento, nosso desespero? Ele não vê o descaso que ocorreu em várias instâncias de poder, afetando hospitais? Ele não vê a lentidão da vacinação, e toda polarização política que piora a situação? "Mestre, não te importas que morramos?" (Mc. 4:38).


O questionamento dos discípulos no barco em meio a tempestade no Mar da Galiléia ecoa em nossos corações. Muitos de nós enfrentamos a doença, com toda ansiedade que ela traz. Muitos enfrentamos o luto e a dor da separação. “Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Sl. 13:1). Deus está dormindo? Se esqueceu de nós? Os homens e mulheres do Antigo e do Novo Testamento levaram esta inquietação diante de Deus muitas vezes.


Se Deus é poderoso para mudar a situação, por que a demora? Abraão, Sara, Jó, Moisés, Ana, Davi, e muitos outros experimentaram isto, buscando a Deus no período de dificuldade. Na tempestade no Mar da Galiléia, Jesus está no barco. Os discípulos ainda não o reconhecem como Deus, apenas como um rabino, um mestre religioso: "não te importas que morramos?" Refletindo um pouco como leitor do evangelho séculos depois, a pergunta beira o absurdo. Pouquíssimas coisas são tão importantes para Jesus do que o risco de morte ao qual a humanidade está exposta.


Jesus se encarna para que tenhamos vida, e vida em abundância (João 10). Ele veio “para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc. 10:45). Jesus se importa, e muito, com o sofrimento humano, com a morte. A encarnação e a cruz são a prova definitiva disto. Jesus assume a responsabilidade e o sofrimento e luta contra o mal supremo do mundo: a tempestade dos nossos pecados golpeando-o na solidão da cruz.


Gosto de imaginar no quão ingênuos os discípulos que enfrentaram a tempestade naquele barquinho deviam se sentir ao lembrar deste evento depois da ressureição. "Mestre, não te importas que morramos?"... que constrangedor lembrar que você já perguntou isto para aquele que enfrentou a cruz para te livrar da morte eterna. Eu imagino o apóstolo Pedro compartilhando a história com o evangelista Marcos, que a registra. É claro que, naquele momento, no barco, os discípulos ainda não entendiam a sabiam da cruz, da ressurreição, nem da identidade de Jesus – “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?”.


Mas depois da ressurreição, eles sabem as respostas das perguntas. No barco, no meio das graves tempestades da vida, é Jesus, o Deus-Criador encarnado, que está com eles. E Jesus se importa. Jesus se importa a ponto de dar a própria vida. Diferentemente dos discípulos, nós já sabemos disto. A tempestade vem. A pandemia vem. Doença, desemprego, ansiedade, medo, morte e luto. Será que Deus não se importa? Ele não vê nosso sofrimento, nosso desespero? Ele vê. Ele sabe. Ele “tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Is. 53:2).


Do meio da nossa tempestade, é fácil esquecer o quanto Deus já demostrou que se importa, o quanto Deus já lutou, já absorveu, já sofreu para nos livrar do pecado e da morte. Não permita isto. Não isole a realidade presente – especialmente a dor, a angústia, o luto – da realidade maior da cruz. Como disse John Stott: “Eu jamais poderia crer em Deus se não fosse pela cruz. (...) No mundo real da dor, como adorar a um Deus que fosse imune a ela?". Mas, diante da cruz, está claro que o mestre se importa. Há choro, mas é por enquanto. Há também ressurreição, e ele enxugará toda lágrima. Afinal, quem nos separará do amor de Cristo?

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