• Pr. André Pereira

Síndrome de Herodes

“O rei ficou muito aflito, mas por causa do seu juramento e dos convidados, não quis negar o pedido à jovem. Assim enviou imediatamente um carrasco com ordens para trazer a cabeça de João” – Marcos 6:26-27.


Herodes mandou matar João Batista. O relato está no capítulo 6 do Evangelho de Marcos. O texto diz que Herodes ficou muito aflito, mas ainda assim mandou matar o profeta. Foi dolorido. “Herodes temia a João e o protegia, sabendo que ele era um homem justo e santo; e quando o ouvia, ficava perplexo. Mesmo assim gostava de ouvi-lo.” (v. 20).


Por que João não ficou quieto? Por que não aceitou as ameaças e se silenciou? Mas o profeta insistia. “João dizia a Herodes: "Não te é permitido viver com a mulher do teu irmão".” (v. 18). Assim, “o próprio Herodes tinha dado ordens para que prendessem João, o amarrassem e o colocassem na prisão, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual se casara.” (v.17). E agora, no meio da sua festa de casamento, o juramento feito à afiliada leva ao constrangimento público e, embora aflito, dá a ordem ao carrasco.


Quem matou João Batista? Quem é o culpado? O carrasco, que mata João obedecendo ordens? A filha de Herodias, Salomé, que acata o direcionamento do João e pede a morte do profeta? Herodias, que prefere a morte de João a metade do reino? Ou Herodes, que dá a ordem, mesmo sabendo que João Batista era um homem santo e justo?


A maneira como o texto é apresentado aponta para o julgamento e crucificação de Jesus. Um representante romano (Herodes, Pilatos) não vê culpa no réu, mas cede a pressão. Aqui está o que poderíamos chamar de síndrome de Herodes. Quem é afetado por ela gosta de ouvir os profetas, isto é, a Palavra de Deus. Às vezes até ficamos perplexos! Sabemos que ela é santa e justa. Mas às vezes ela fica denunciando nossos erros, nossos pecados – até mesmo em público. “Não te é permitido viver assim”. Então a prendemos. Estabelecemos limites de sua influência. Gostamos de ir ouví-la, lê-la, vez ou outra. As vezes ficamos admirados com um insight, um conselho. Mas soltá-la? Não. Nossas paixões não gostam da Palavra de Deus livre.


E aí, um belo dia chega um momento, um constrangimento coletivo... e, mesmo aflitos e tristes, consentimos com sua morte. Deus nos livre da síndrome de Herodes, de Pilatos. Simpáticos ao profeta, a Palavra, ao Verbo de Deus, santo e justo. Mas mais comprometidos com as paixões e a imagem diante dos homens. Que a Palavra esteja livre, poderosa e transformadora em nosso meio e em nosso coração!

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